Beto Shwafaty

Contrato de Risco

08 Outubro — 14 Novembro 2015
Sala 02






Desde março de 2014, quando a Polícia Federal iniciou a primeira fase da chamada “Operação Lava Jato”, inúmeras imagens do EDISE, edifício sede da Petrobras localizado no centro do Rio de Janeiro, têm se proliferado no noticiário nacional e internacional com uma frequência possivelmente não vista desde sua inauguração, no começo da década de 1970. O arrojado projeto, de uma equipe de arquitetos paranaenses liderada por Roberto Luiz Gandolfi, fora selecionado por meio de um concurso promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e, ao mesmo tempo que apresentava elementos característicos da arquitetura moderna, então já consolidada, incluía também aspectos tecnológicos avançados – como uma central de automação –, lembrando os atuais edifícios “inteligentes”. Sob o espectro de uma crise petrolífera que já se anunciava desde o final da década de 1960, o EDISE emergia na mídia nacional como “símbolo do chamado Brasil grande”, conforme descreve a legenda da imagem do edifício em construção publicada em 1972 pelo jornal O Globo e reproduzida em uma das serigrafias que integra a série Abstrações sujas, que integra a mostra Contrato de Risco.

Nessa série, assim como em muitos de seus trabalhos anteriores, Beto Shwafaty traz à tona o modo como certos discursos e ideologias desenvolvimentistas ou modernizantes foram associados a determinadas manifestações artísticas – sobretudo arquitetônicas – durante alguns dos ciclos de expansão econômica no Brasil. Cada peça da série é composta por matérias de jornal que narram diferentes episódios relativos à história do EDISE, serigrafadas sobre tecido e por uma placa de concreto maciço em relevo, fazendo referência ao revestimento abstrato-geométrico que decora as entradas principais do edifício. A escolha do artista por esse detalhe ornamental é um exemplo, entre muitos presentes em sua obra, de como a estética modernista esteve atrelada às ideologias progressistas promovidas pelo poder público desde o pós-guerra até o período do chamado Milagre Econômico. No entanto, ao reproduzir artigos que vão até a década de 1990, Shwafaty nos apresenta um panorama das transformações políticas e econômicas que ocorreram no país naquele período. Da mesma forma, o artista propõe um resgate da imagem do edifício e de sua representação na mídia: de símbolo de um Brasil grande, o edifício passa a ser palco de protestos contra a privatização da empresa. Como o próprio artista coloca, “nessas obras, há a intenção de explorar o confronto que existe entre regimes de produção de imagens, discursos e espaços e suas respectivas interpretações, usos e leituras em determinados momentos históricos”.

“Contrato de Risco” apresenta um conjunto de trabalhos resultantes de uma pesquisa em torno do petróleo, uma espécie de epicentro simbólico da produção de discursos políticos ao longo das últimas seis décadas. Embora Shwafaty já venha explorando o assunto desde 2009, a mostra reúne pela primeira vez um grupo significativo de obras que derivam de diferentes vertentes dessa investigação. Aqui, o artista cria um ambiente emoldurado por um grande painel pintado com padrões geométricos em preto em branco, fazendo referência a um padrão criado por Athos Bulcão para o edifício da Petrobras em Brasília. Mais uma vez, a referência é a estética concretista e seu uso decorativo nos edifícios públicos. Entretanto, nesse caso, é o próprio padrão que sofre alterações, de modo que, gradativamente, as seções em preto tomam conta de toda a parede. Assim, o espaço expositivo é ocupado por peças tridimensionais que apontam para outros desdobramentos do mesmo tema.

Entre os trabalhos, Alcances e limites (Das ordens abstratas à exploração territorial) é formado por uma escultura cujos elementos incluem uma broca manual com um cabo de madeira queimado, acompanhada por uma chapa de latão que apresenta, gravada, uma imagem pertencente ao Arquivo Público do Estado de São Paulo retratando a perfuração e a prospecção de um poço de petróleo na área de transição entre o Recôncavo Baiano e a Amazônia legal. Ao articular esses símbolos, materiais, imagens e formas, o artista propõe um comentário sobre a exploração dos recursos naturais no território amazônico ao longo de nossa história recente e levanta uma discussão atualíssima sobre a sustentabilidade desse território – seus alcances e limites – num momento em que os riscos de um irreversível impacto ambiental causado pelo modelo econômico vigente se encontra no centro do debate político internacional.

Os projetos de Shwafaty envolvem, invariavelmente, uma espécie de pesquisa de campo de caráter quase arqueológico; para isso, são levantados documentos históricos, imagens, padrões gráficos, objetos e fragmentos de filmes que são cuidadosamente selecionados e reconfigurados em obras que muitas vezes revelam aspectos dissidentes das narrativas históricas oficiais. Por outro lado, sua metodologia de pesquisa é muito mais próxima de um pensamento curatorial do que de uma abordagem estritamente acadêmica, na medida em que seu interesse recai sobre a produção de conhecimento a partir dos elementos que constituem a própria linguagem expositiva, assim como dos sentidos criados pela justaposição ou pelo encadeamento de materiais discursivos e iconográficos. Isso é evidente, por exemplo, em sua preocupação com as estratégias de display e seu papel fundamental na organização da experiência do espectador e da consequente contextualização e interpretação da obra – no caso de Shwafaty, esse procedimento é parte constitutiva do próprio trabalho. Assim, as proposições do artista são sobretudo projetos que, ao confrontar narrativas oficiais a partir da ressignificação de imagens, discursos e formas, nos tornam mais conscientes das forças do passado que ainda atuam sobre nosso presente histórico.

Kiki Mazzucchelli

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A Galeria Luisa Strina tem o prazer de anunciar a primeira exposição individual do artista Beto Shwafaty.

Beto Shwafaty é artista e pesquisador. Ele esteve envolvido com práticas coletivas, curatoriais e espaciais desde o início da década de 2000, e como resultado, ele desenvolve uma prática baseada em pesquisas sobre espaços, histórias e visualidades na qual procura conectar formalmente e conceitualmente questões políticas, sociais e culturais convergentes ao campo da arte.

Beto Shwafaty reunirá obras que atuam tanto simbolicamente quanto de modo evocativo sobre diversos aspectos e episódios ligados aos ciclos de exploração do petróleo, assumido como um dos principais ‘lubrificantes’ de narrativas políticas e históricas do último século. Nesse projeto, que vem sendo desenvolvido desde 2009, o artista explora os efeitos, presenças e ecos dos discursos e ações que cercam o universo petrolífero e seus ciclos de existência no país, quando se alastram por diversos tempos e âmbitos da esfera pública, tais como a mídia, a propaganda, o discurso politico, a cartografia e os objetos cotidianos.

Exposições recentes incluem: CFB: 25 Anos, Casa França-Brasil (Rio de Janeiro, 2015); Encruzilhada, Parque Lage (Rio de Janeiro, 2015); 5o Prêmio Sesi Marcantônio Vilaça, MAC Ibirapuera (São Paulo, 2015); Temporada de Projetos do Paço das Artes (São Paulo, 2014); PArC Solo Projects (Lima, 2014); O Artista Como… (São Paulo, 2014); Fundamentos da substância do design: metáforas culturais para projetar um novo futuro, Museu da Cidade – Oca (São Paulo, 2014); P33_Formas Únicas de Continuidade no Espaço [33o Panorama da Arte Brasileira] (São Paulo, 2013); 9a Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2013); Amor e Ódio a Lygia Clark, Zacheta National Gallery (Varsóvia, 2013); Conversations Pieces, NBK (Berlim, 2013); 10a Bienal de Arquitetura de São Paulo (CCSP, 2013); Eternal Tour (São Paulo, 2012); Mitologias, Cité des Arts (Paris, 2011) e MAM (São Paulo, 2013); À sombra do futuro, Instituto Cervantes (São Paulo, 2010).

Seu trabalho faz parte das seguintes coleções públicas: MAR Museu de Arte do Rio, Brasil; Museu Nacional da República, Brasília, Brasil; Paço Imperial- IPHAN, Rio de Janeiro, Brasil; Museu de Arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, Brasil; Museu de Arte Contempôranea José Pancetti, Campinas, Brasil; Pinacoteca de Piracicaba, Piracicaba, Brasil; Estampería Quinteña, Quito, Equador; Casa de Las Américas, Havana, Cuba.

Em 2013 Shwafaty publicou ‘A Vida dos Centros’, um foto-livro de docu-ficção em que são abordados alguns fluxos históricos de desenvolvimento urbano em três regiões de São Paulo.

Em 2015 o artista foi selecionado pela Bolsa ICCo/SP-Arte e pelo Prêmio FOCO Bradesco ArtRio que ofereceram, respectivamente, uma residência no segundo semestre na Residency Unlimited (RU), Nova York e outra na Lugar a Dudas, Cali, Colômbia. Ainda em 2015, o artista participa do 19o Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (São Paulo) e do Festival Internacional de Fotografia de Belo Horizonte.

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Para mais informações favor entrar em contato com Flávia França
flavia@galerialuisastrina.com.br

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