Caragh Thuring

20 Novembro 2019 — 24 Janeiro 2020
Sala 01






Em sua primeira individual no Brasil, a artista britânica Caragh Thuring mostra 11 pinturas recentes, feitas sobre linho tecido a partir de imagens de seus trabalhos anteriores

“O fato de as palavras ‘texto’ e ‘têxtil’ compartilharem uma raiz linguística – fazer é tecer e escrever é tecer – é uma combinação útil de partes. Linhas de tecido encenam um tipo de desenho enlouquecido, puxando milhares de voltas entrelaçadas em um emaranhado de caminhos, intuição e ação. Como se capitalizasse com essa coincidência semântica, Thuring usa pinturas documentadas existentes e outras fotografias que ela tirou como arquivos de impressão de baixa resolução para tecelagem produzida digitalmente. Dessa maneira, suas telas são transformadas em antropologia gráfica, um índice de marcas e imagens próprias. Aqui, um atalho ou tautologia estranha significa que os gestos do autor, do pintor, são incorporados à tela muito antes de o ‘trabalho’ pictórico ter começado. Esta é uma reciclagem complexa de imagem e pincelada, um tipo de linguagem da pintura que usa simetria e ressonância como a composição de uma história visual”, escreve a artista Helen Marten em ensaio para uma exposição recente da colega Caragh Thuring.

Em sua primeira exposição individual no Brasil, a artista baseada em Londres reúne obras que sintetizam todo o seu léxico recente de imagens recicladas: vulcões, navios, tartan, tijolos, silhuetas apropriadas de anúncios de moda, e até mesmo um fragmento fotografado de uma pintura de Frans Hals. Sobre esta pintura em particular, intitulada The Golden Age (2019), Caragh conta que a obra surge de uma fotografia feita com seu telefone do canto emoldurado de uma pintura no Museu Frans Hals, em Haarlem, na Holanda: “Uma chuva de moedas cai de cima para baixo na imagem e habita uma variedade de planos na imagem.  Algumas parecem estar na pintura ou emergir dela. Outras, do lado de fora, caindo sobre a moldura ou entre a moldura e a pintura. Pode ser uma chuva de ouro ou Danaë e Zeus”.

Um aparente paradoxo entre, de um lado, uma preocupação com o enigma da profundidade nas pinturas, e, de outro, um elogio da superficialidade, como se as pinturas pretendessem discutir o vazio de nossas vidas digitais, ou mesmo a complexidade da superfície, é um dos principais interesses de Thuring: “Acho que o trabalho funciona para todos esses paradoxos. Estou constantemente interessada no que está por trás, por baixo ou além, e não no que me é apresentado em qualquer circunstância em particular. As imagens funcionam muito espacialmente, bem como em um nível de superfície plana. Crio planos e ambientes diferentes, em camadas e co-habitando a mesma tela. Estes trabalhos tecidos, particularmente, oscilam entre profundidade e planaridade. A tela tem uma imagem já incorporada pela própria natureza da tecelagem, sobre a qual eu pinto. Há também uma enorme quantidade de espaço e tempo que se condensa na superfície. Estou usando a tecnologia de tecelagem antiga e as tecnologias digitais atuais para fazer essas fotos que, no final, são basicamente o mesmo …. 0 e 1. A obra discute todos esses aspectos à medida que coexistem e são impossíveis de separar”.

Chuchu (2019), única obra da exposição com título em português, possui uma gênese curiosa, que exemplifica a liberdade temática das obras da artista. “Vi um chuchu na casa de um amigo e pensei que parecia particularmente uma antiga escultura de fertilidade ou uma estatueta de Vênus. Acabei moldando o chuchu e fazendo uma pequena escultura de cera, e agora ele está na pintura!”, revela.

Ainda abordando as pinturas como composições de uma história visual, Helen Marten prossegue, em seu texto intitulado Motor Metaphors: Notes on the Paintings of Caragh Thuring (2019), “essa é uma característica preservada de maneira semelhante pela poesia, pelo fogo ou pelo estranho deslizamento de nuvens no céu: os contornos estão lá, mas são fugazes, de modo que a plotagem empírica está fora de alcance. A música também aciona gatilhos semelhantes. É cheia de uma vida misteriosa, contornos não totalmente perceptíveis de objeto ou imagem, mas abstrações da pluralidade óptica. Os episódios se sobrepõem, o que significa que a linha do tempo convencional de uma ‘pintura finalizada’ torna-se, aqui, elástica, porque o conteúdo foi pré-configurado”.

SOBRE A ARTISTA

Nascida em Bruxelas, Bélgica (1972), Thuring vive e trabalha em Londres, Inglaterra, e Argyll, Escócia, e tem dez anos de consistente trajetória; no momento, participa da mostra Slow Painting, exposição itinerante da Hayward na Leeds Art Gallery (24 de outubro 2019 – 12 de janeiro 2020), que viaja para The Levinsky Gallery, Plymouth (25 de janeiro – 29 de março 2020) e para Inverness e Thurso, na Escócia. No ano passado, ela teve obras incluídas nas mostras Criminal Ornamentation, Attenborough Arts Centre, Leicester, Inglaterra [com itinerância para: Royal Albert Memorial Museum, Exeter, Inglaterra; Longside Gallery, Arts Council Collection, Wakefield, Inglaterra; Southampton Art Gallery, Southampton, England]; e Virginia Woolf, An exhibition inspired by her writings, Tate St Ives, St Ives, Cornualha; [com itinerância para: Pallant House, Chichester, Inglaterra; Fitzwilliam Museum, Cambridge, Inglaterra]. Coleções públicas: Tate Gallery, Londres, Inglaterra; Arts Council Collection, Inglaterra; Kistefos, Oslo, Noruega; Government Art Collection, Inglaterra; Albright-Knox Art Gallery, Buffalo NY.

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