Chão de giz

primeira exposição do ciclo comemorativo dos 45 anos da Galeria Luisa Strina

24 Agosto — 23 Novembro 2019
Anexo (rua Padre João Manuel 974a)






Chão de Giz celebra os 45 anos da Galeria Luisa Strina, aniversário que se comemora, mais precisamente, no dia 17 de dezembro, quando a segunda exposição do ciclo comemorativo será inaugurada. Nessa primeira etapa, uma mostra coletiva revisita trabalhos icônicos originalmente exibidos na galeria no período de pouco mais de 20 anos, de 1974 a meados de 1990. Às obras históricas, somam-se outras de artistas que entraram para o time da galeria nos anos 2000, configurando um diálogo diacrônico em torno do tema curatorial: chão de giz.

Um chão de giz – que também poderia ser um chão de carvão – constitui um terreno instável, sobre o qual se transita com alguma hesitação inicialmente. O título da mostra alude, claro, à obra de Cildo Meireles, Cinza (1984/1986), artista cuja trajetória caminha junto com a da galeria, e vice-versa, há quatro décadas. Mas refere-se também ao contexto político e cultural dos anos 1970 no Brasil. Foi sobre um solo instável do ponto de vista da liberdade de expressão que a Galeria Luisa Strina abriu as portas em dezembro de 1974.

Antonio Dias, Caetano de Almeida, Carlos Fajardo, Cildo Meireles, Dora Longo Bahia, Edgard de Souza, Fernanda Gomes, Ivens Machado, Jorge Guinle, Leonilson, Luiz Paulo Baravelli, Marina Saleme, Milton Machado, Mira Schendel, Muntadas, Nelson Felix, Nelson Leirner, Regina Silveira, Tunga, Waltercio Caldas e Wesley Duke Lee são alguns dos artistas que participaram ativamente dos primeiros 20 e poucos anos desse percurso, que se funde com a própria história recente da arte brasileira, e cujos trabalhos estão reunidos na mostra.

Uma leitura alternativa do “chão de giz”, porém, é a do caminho vacilante das novas linguagens que estavam no auge da experimentação no momento em que Luisa Strina fundou a galeria, e que, até então, viviam e se reproduziam “deliberadamente na sombra”. Mesmo com a redemocratização, a “retórica da abertura” não incentivava as “linguagens de abertura”, para usar expressões do debate de ideias do início dos anos 1980. A condição do novo que a arte experimental propunha não agradava a cultura dominante da época, que mantinha “o compromisso do velho-novo”.

Toda a programação deste ano celebra o aniversário, a começar pelas duas mostras inaugurais, de Anna Maria Maiolino e Beto Shwafaty, que simbolizam os principais valores defendidos por Strina desde que inaugurou a galeria: liberdade irrestrita de expressão aos artistas, para experimentarem e ousarem sempre, fosse na linguagem ou no conteúdo de suas obras. Os valores da liberdade e da experimentação deram forma e fama a um espaço pouco convencional, que fomentou e difundiu a arte conceitual – na contramão da mentalidade “velho-novo” – no calor do momento em que estava sendo inventada, reinventada e desconstruída.

Na SP-Arte 2019, a galeria apresentou pela primeira vez em seu estande obras de Robert Rauschenberg, além de trabalhos de Mona Hatoum, Alfredo Jaar, Muntadas e Leonor Antunes para marcar as comemorações dos 45 anos. Ainda no primeiro semestre, a galeria realizou individuais de Carlos Garaicoa, Miguel Rio Branco e Magdalena Jitrik, além de uma coletiva que reuniu obras de três grandes nomes do conceitualismo no mundo da arte: Jimmie Durham, Cildo Meireles e Pedro Cabrita Reis. Neste segundo semestre, as mostras comemorativas continuam com individuais de outras pratas da casa: Caetano de Almeida e Brian Griffiths [ambas de agosto a setembro]; Laura Lima e Matias Duville [ambas de final de setembro a início de novembro]. E a galeria encerra o ano fazendo jus à tradição de inovar, com exposição individual de uma jovem artista britânica, Caragh Thuring, a partir de 19 de novembro.

Mais longeva galeria brasileira dedicada exclusivamente à arte contemporânea, a Galeria Luisa Strina tem sua história atrelada à da internacionalização da arte brasileira, assim como à história da internacionalização das coleções de arte brasileiras. A presença pioneira na Art|Basel é uma das razões que explicam este fato incontestável. Outra delas é a postura que Luisa adotou, desde a criação da galeria, de apresentar em São Paulo exposições solo de artistas estrangeiros.

Foi neste primeiro período também que aconteceram exposições hoje célebres, como Cinza, de Cildo Meireles, em 1986, que ocupou a sala principal da galeria com uma instalação que desafiava a percepção visual e física do visitante, convidado a entrar nas duas salas em forma de cubo, constituídas por cinco painéis de lona pintados com tinta acrílica. No lado interno dos cinco painéis de uma sala, as telas pintadas de preto são rabiscadas com giz branco, restando apenas, no centro dos painéis, uma imagem preta que é a projeção de um bastão de giz. O chão está totalmente coberto de giz. Nos cinco painéis da sala adjacente, o carvão vegetal é aplicado sobre as telas pintadas de branco. No centro de cada painel aparece uma imagem branca que é a projeção nas quatro paredes e no teto de um pedaço de carvão. O chão está coberto de pedaços de carvão vegetal. Branco e preto se misturavam pela ação dos espectadores participantes.

Na exposição Chão de Giz, para abordar esse marco histórico, incluem-se duas pinturas de Meireles que foram exibidas na individual de 1986. A instalação Cinza (1984/1986) está entre as obras que foram selecionadas pelos curadores Júlia Rebouças e Diego Matos para a retrospectiva de Cildo Meireles, intitulada Entrevendo, que será inaugurada no final de setembro no Sesc Pompeia.

No início dos anos 2000, a GLS incorporou dois outros pisos do edifício da Rua Oscar Freire, para ampliar seu programa de exposições, passando a realizar duas ou mesmo três mostras concomitantes no espaço. O experimentalismo que sempre foi marca-registrada da galeria e de seus artistas se espraiou para o térreo e o terraço – que sediou memoráveis projetos site-specific. Antes mesmo de dispor de mais espaço físico, já havia o fomento do caráter público da arte contemporânea por parte da Galeria Luisa Strina, faceta que ganhou notoriedade com a intervenção de Félix González-Torres no outdoor que havia na fachada do prédio. Em 2004, Renata Lucas realizou o histórico Cruzamento no encontro das ruas Padre João Manuel e Oscar Freire.

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