Clarissa Tossin

Gasto

29 Junho — 30 Julho 2011
Projeto






Quanto dura a vida útil dos objetos que consumimos diariamente? O tempo de produção e posterior decomposição de um sache de chá é infinitamente maior aos poucos minutos que demoramos para beber uma xícara de chá. Em Gasto, Clarissa Tossin materializa seu rastro de consumo durante dois meses, preservando todo o lixo doméstico que produziu nesse período. Cada objeto presente na sala é um item descartado que foi mergulhado em porcelana líquida e queimado no forno. Papel, algodão, pedaços de tecido, sementes de frutas, copos de café e outros materiais viraram cinzas durante a queima, restando apenas uma camada oca de porcelana. O rastro sumiu e ao mesmo tempo foi perpetuado em um material nobre, oposto a sua origem. Aquilo por principio anônimo, se tornou um objeto único, com particularidades estéticas que partiram do desforme e negligenciado.

Gasto é uma instalação que provoca fascinação pelas situações mais silenciosas, interpondo uma membrana delicada e estéril que nos permite olhar de perto a intimidade da artista, sem nos sentirmos invasores ou agredidos. Rodeado pelo desperdício alheio – de repente frágil – cada visitante não poderá evitar pensar em sua contribuição ao crescimento dessas “ruínas da sociedade de consumo,” nas palavras da artista, que nos empenhamos em esquecer. Se uma das peças quebra, vira lixo novamente? O que permanece do modelo capitalista, se a constante é o gasto? A experiência desaparece facilmente mas a evidência continua a existir. Ela sofre um trânsito, desde sua primeira etapa massiva e atraente – em caixas, prateleiras, vitrines, lojas – até sua utilização individual, para retornar ao coletivo como resíduo de momentos privados que se misturam indiscriminadamente no esquecimento público. Clarissa fossiliza o trânsito do seu consumo no meio do caminho e conduz à pergunta: quanto do que fazemos permanece?

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