Alexandre da Cunha

Fair Trade

19 Fevereiro — 26 Março 2011
Exposição no 1º piso






O artista apresenta uma série de bordados feitos em colaboração com Luisa Strina e outras obras inéditas. A exposição acontece no novo espaço da galeria: Rua Padre João Manuel, 755 Em seu trabalho, Alexandre da Cunha se apropria de objetos, materiais e citações oriundos de registros tradicionalmente distintos para transformá-los através de um processo de colagem de diferentes elementos. Esta operação geralmente parte de objetos mundanos encontrados num cotidiano qualquer, que são apropriados, recombinados e finalmente inseridos em uma nova hierarquia de valor. Ao trazer estes objetos para dentro do universo da arte, o artista os destitui de sua função original, ao mesmo tempo em que levanta questões relativas a valor, circulação, intencionalidade, entre outras. Em muitos casos, faz também alusões a estilos ou movimentos específicos já estabelecidos dentro da história da arte ocidental oficial, promovendo, com humor (auto)-crítico, um curto-circuito de hierarquias.

Nos bordados reunidos na exposição Fair trade, encontramos justamente este procedimento de colagem, que envolve desde o título da mostra até a complexa rede de referências que esses trabalhos ativam. Fair trade, ou “comércio justo” é um selo que vem sendo cada vez mais utilizado nos países chamados desenvolvidos para designar os produtos adquiridos de países emergentes a preços sustentáveis, em que o produtor recebe uma remuneração considerada adequada, com o intuito de corrigir a exploração promovida pelo comércio internacional convencional. Neste caso, o artista coloca sua própria galerista, Luisa Strina, no papel de produtora: foi ela quem confeccionou manualmente, ao longo de dois anos, um a um, os bordados exibidos nesta mostra. Não se trata aqui, contudo, de uma mera tentativa de inverter uma determinada relação de poder ou de apontar para uma suposta relação de exploração entre galerista e artista – pois este seria um caminho muito simplista dentro da intrincada rede de relações que permeia o circuito da arte contemporânea hoje -, mas de uma operação muito mais complexa que promove uma confusão entre os vários papéis que ela passa a assumir: artesã, artista, galerista, assistente de artista.

Uma atividade como o bordado é normalmente associada às mulheres afeitas aos trabalhos do lar e que não possuem ocupações profissionais; uma imagem que contrasta tremendamente com a figura de uma galerista empreendedora e mulher independente. Esses objetos promovem, portanto, o encontro de dois mundos profundamente distintos.

Há ainda um outro dado em jogo nesta série de trabalhos, que é também relacionado a uma operação de apropriação de um estilo histórico da arte, mas que se dá precisamente na incorporação do fazer feminino que lhe confere uma dimensão distinta de trabalhos anteriores. Trata-se de algo presente nas Droguinhas de Mira Schendel, nas peças maleáveis de Eva Hesse, nos trabalhos em tecido de Louise Bourgeois e até mesmo em Lina Bo Bardi e sua apropriação do saber popular do artesanato nordestino, configurando uma espécie de genealogia não linear de um certo apreço, por parte dessas artistas mulheres, pela pequenez (não no sentido derrogatório) e transitoriedade das coisas cotidianas bem como sua incorporação de técnicas transmitidas principalmente num universo feminino.

O bordado ganha vulto, traduzindo-se então em tapeçaria, e passando a determinar o procedimento construtivo das esculturas em concreto apresentadas nesta exposição. A construção composta de peças industriais, em concreto pré-moldado, é executada a partir do procedimento artesanal de dispô-las, uma a uma, manualmente, sobre o chão da galeria. Essas peças formam uma estrutura rígida, uma espécie de tela ou grid que é entrelaçado pela contrastante maciez de outros materiais como a espuma. Em Fair trade, Alexandre da Cunha se apropria mais uma vez do mundano e do popular, desta vez na forma do artesanato feminino e seus desdobramentos na história da arte, trazendo-os para o universo da arte contemporânea numa espécie de homenagem combinada ao humor crítico de quem reconhece como o potencial revolucionário dessa produção já foi exaustivamente cooptado pelo circuito da arte.

Além de bordados, Alexandre da Cunha apresenta nesta exposição obras inéditas com elementos de cimento, espuma e couro.

Kiki Mazzucchelli *** 19 FEBRUARY – 26 MARCH 1ST FLOOR SHOW OPENING 19 FEBRUARY, NOON The artist will exhibit embroideries made in collaboration with Luisa Strina and a series of new sculptures. The exhibition takes place in the new space of the gallery: Rua Padre João Manuel, 755 In his work, Alexandre da Cunha appropriates objects, material and citations from traditionally distinct registers in order to transform them through a process of collage of different elements. This operation usually begins with ordinary objects found in any day-to-day existence, which are appropriated, recombined and finally inserted into a new hierarchy of value. By bringing these objects into the universe of art, the artist removes their original function, whilst at the same time raising questions related to value, circulation, intentionality, among others. In many cases, he also alludes to specific styles or movements recognised by official Western Art History, thus creating – with (self)-critical humour – a hierarchical short-circuit.

In the embroideries presented at the Fair trade exhibition, we find this very collage procedure, which includes elements from the show title right to the complex network of references which these works activate. Fair trade is a type of certification that has been increasingly used in so-called developed countries to designate the products acquired from emerging countries at sustainable prices, in which the producer receives adequate remuneration, with the aim of correcting the exploitation promoted by conventional international trade. In this case, the artist casts his own dealer, Luisa Strina, in the role of producer: it was she who, one by one, stitched the embroideries shown in this exhibition over a period of two years, by hand. However, this is not merely an attempt to reverse a certain power relationship or to underscore a supposed relationship of exploitation between dealer and artist, – as this would be a very simplistic way of addressing the intricate network of relationships that permeates the contemporary art circuit today – but a much more complex operation which promotes an oscillation between the many roles she assumes: artisan, artist, dealer, artist’s assistant.

An activity such as embroidery is normally associated with women who engage in housekeeping tasks and do not have a professional occupation; an image which greatly contrasts with the figure of an entrepreneurial dealer and independent woman. These objects therefore promote the encounter of two profoundly distinct worlds.

There is also another aspect at stake in this series of works, which is also related to a process of appropriating a historical art style, taking place precisely in the incorporation of a feminine skill, giving it another dimension in relation to previous works. This something is present in Mira Schendel’s Droguinhas, in Eva Hesse’s malleable pieces, in Louise Bourgeois’ fabric works and even in Lina Bo Bardi with her appropriation of popular knowledge from the Brazilian Northeastern handicraft, configuring a kind of non-linear genealogy of a certain appreciation on the part of these female artists, of the smallness (not in a derogatory sense) and impermanence of ordinary things as well as their incorporation of techniques conveyed mainly within a feminine universe. The logic of embroidery is taken to a larger scale, thus becoming tapestry, and determining the constructive procedure of the concrete sculptures that are shown in the exhibition. The construction made up of industrial concrete bricks employs the artisanal method in which they are laid out one by one over the gallery floor. These pieces create a rigid structure, a kind of canvas or grid which is woven by the contrasting softness of other materials such as foam.

In Fair trade, Alexandre da Cunha once again uses the mundane and the popular, this time in the form of female craftsmanship and its developments in art history, bringing these into the universe of contemporary art in a kind of tribute combined with the critical humour of someone who recognises how the revolutionary potential of this production has already been exhaustively co-opted by the art circuit.

In addition to embroideries, the exhibition will include new works made of cement, leather and foam.

Kiki Mazzuchelli.

Voltar ao Topo