Homo Ludens

exposição coletiva com curadoria de Ricardo Sardenberg

31 Agosto — 05 Novembro 2016
Sala 01, Sala 02






Belo como o encontro casual entre uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecção.
Lautréamont

Este texto deve ser lido como complemento da exposição Homo Ludens realizada na Galeria Luisa Strina, entre os dias 31 de agosto e 5 de novembro de 2016. Digo “complemento”, porque ele é um dos muitos gestos necessários para se chegar ao resultado final da exposição. Na realidade, o texto da exposição é a própria mostra e, por isso, não serve como explicação teórica daquilo que se passa nas salas expositivas. As obras apresentadas são marcos metafóricos e poéticos de visualidade plástica e só podem ser lidos presencialmente durante a visita ao espaço expositivo. Isso, se conseguir de fato realizar a mostra em seu potencial lúdico. Em outras palavras: o conceito da exposição só será alcançado uma vez que ocorra o encontro de todas as obras no espaço em questão.

Assim como em outras mostras que curei (a saber, Noite azul elétrico, Tara por livros, On another scale e Cordão dos mentecaptos*), Homo Ludens parte de uma ideia que, de alguma forma, diz respeito a minha relação com o mundo. Em uma era tão mediada pela tecnologia, parece-me que nos distanciamos cada vez mais do que é essencial e do que nos garante a humanidade, como, por exemplo, o ato de parar para sentir o cheiro do campo molhado, ou mesmo o de observar as espécies de pássaros que vivem em nossas cidades ou passam de visita ao longo do ano. Para esta exposição, minha ideia original foi lidar com o conceito de jogo, e o que me atraiu foi antes o processo de convidar artistas para colaborar do que qualquer definição teórica do tema.

Certo dia, jogando frescobol na praia, dei-me conta de que existem várias dimensões de jogos, pois no frescobol não se joga contra alguém, mas com alguém. O outro, no caso, não é um oponente, e as regras, por sua vez, não são bem definidas. Não existe o lance perfeito – a cortada equivale à bola levantada – e o verdadeiro prazer está em manter a bola no ar, em moto-contínuo. Para usar o jargão curatorial contemporâneo: não existe, neste caso, um recorte, uma estratégia ou um conceito pré-concebido. Pensando o frescobol e a ausência de competição no jogo, cheguei ao entendimento do lúdico, à ideia de brincadeira, que foi o que a princípio me interessou.

Os temas foram fluindo naturalmente: a morte, o universo infantil, os meios de produção capitalista, a guerra, o ilusionismo, a estratégia, a fantasia, a história da arte. Mas, neste caso, nada disso se configura estanque ou pretende apreender chaves de entendimento para a exposição. O diálogo com os artistas e as sugestões poéticas que os trabalhos me trouxeram estão distribuídos no tabuleiro expositivo, para que as relações se deem no convívio, admitindo o embate que é próprio do jogo.

Antes de ser pensada, a exposição deve ser experimentada e contemplada. Se me permitirem a ousadia, sugiro ao visitante que faça com que a experiência anteceda a racionalização. Idealmente, o visitante deve se tornar espectador desse “jogo de frescobol” existente entre os objetos dispostos no espaço, para então descobrir as cartas marcadas no tabuleiro do espaço expositivo.

A ideia original é uma espécie de ímã que atrai para o mesmo contexto todos os trabalhos então apresentados. Uma vez no espaço, uma teia de relações faz com que eles deixem de lado sua autonomia enquanto obras de arte para participarem em conjunto dessa proposição lúdica hic et nunc.

Homo Ludens é um termo que tomei emprestado do livro homônimo do historiador holandês Johan Huizinga. No entanto, a exposição não se revela como uma pesquisa em torno dos conceitos desenvolvidos por Huizinga, mas, antes, como um poema inspirado na proposta original do historiador. Afinal, é próprio do homo ludens jogar dentro de uma estrutura cultural com regras determinadas, ressaltando o caráter lúdico da vida.

O homo ludens volta às cavernas e sugere que o artista contemporâneo seja uma espécie de artista rupestre supermediado. Os nossos gestos, as nossas danças, são tão importante quanto o que pensamos e construímos quando produzimos algo. É bom – e belo – fazer uma pausa para contemplar o fato de que somos todos Homo sapiens, Homo faber e Homo ludens.

Artistas participantes: Bas Jan Ader, Hans Bellmer, José Bento, Pedro Caetano, Waltércio Caldas, Alexander Calder, Saint Clair Cemin, Alex Cerveny, Tiago Carneiro da Cunha, Wesley Duke Lee, León Ferrari, Marcius Galan, Fernanda Gomes, Agnieszka Kurant, Guto Lacaz, Nelson Leirner, Patricia Leite, Leonilson, Laura Lima e Jarbas Lopes, Renata Lucas, Jorge Macchi, Montez Magno, Marepe, Ana Mazzei, Cildo Meireles, Ernesto Neto, Rivane Neuenschwander, Pedro Reyes, Dieter Roth, Beto Shwafaty e Erika Verzutti.

* Noite azul elétrico, Mendes Wood DM, 2013; Tara por livros, Galeria Bergamin Gomide, 2014; On another scale, Galleria Continua, San Gimigniano, 2014; Cordão dos mentecaptos, Pivô Arte e Pesquisa, São Paulo, 2016.

Período de exposição: 31 de agosto a 5 de novembro 2016
Horário de visitação: Segunda a Sexta das 10 às 19h / Sábados das 10 às 17h.

Para mais informações favor entrar em contato com Flávia França
flavia@galerialuisastrina.com.br

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