Laura Lima

qual

exposição individual

25 Setembro — 09 Novembro 2019
Sala 01






A artista Laura Lima realiza a sua terceira individual na Galeria Luisa Strina trazendo um grupo de novas obras com materiais que se transformam, que impactam o ambiente expositivo de maneira multissensorial e evocam o imaginário fotográfico. A exposição “qual” conta com texto-obra assinado por Daniela Castro / Deleuze Was Wrong, em que as substâncias presentes na mostra entabulam um diálogo em forma de áudio-poema.

Todas as obras são suspensas. A escolha por esse método de apresentação se explica tanto pela transparência e delicadeza das obras, quanto pela postura sempre questionadora da artista em relação a tudo que se entende como “tradição” na história da arte. O grupo de trabalhos Ágrafo, iniciado em 2015, é quase todo mostrado da mesma maneira; neste caso, por se tratar de peças tridimensionais, a suspensão tem a ver com a possibilidade de observação por ângulos diversos, mas também com a atitude avessa à tradição de acomodar esculturas no chão.

Do ponto de vista das experiências da materialidade suspensa na trajetória de Laura Lima, pode-se pensar nos Costumes, nos Portraits e, mais radical de todas, no Balé Literal, que a artista realizou neste ano na encruzilhada d’A Gentil Carioca, no centro do Rio de Janeiro, espécie de ópera bufa protagonizada por objetos que transitavam de um prédio a outro em um fio suspenso, uns mais rápido, outros mais lentamente, configurando a coreografia orquestrada pela artista.

As obras da exposição “qual” são feitas de tule e gelo seco, uma matéria frágil e imaculada, outra instável e mutante. Aqui, o diálogo se estabelece entre as novas obras e os Wrong Drawings (feitos de algodão e carvão), pelo risco iminente de contaminação, um elemento ameaçando o outro. Da perspectiva da materialidade cambiante, importante lembrar das instaurações de HOMEM=CARNE / MULHER=CARNE, em que Laura considera os seres vivos como matéria escultórica.

Para encerrar esta rápida genealogia de obras relacionadas, com o intuito de contextualizar “qual”, falta falar da materialidade fantasmática deste grupo, derivado de seus pensamentos sobre o desenho, que é “desfocado” aqui pelo efeito fumegante do gelo seco. Nesse aspecto, conversam com o universo do Fumoir (2009/2017), que subverte as regras museológicas e permite contemplar as outras obras envolto em fumaça de charuto, assim como com as obras-fotografias Lugares Colagens, em que elementos esfumaçados ou desfocados habitam ambientes art nouveau aos quais, deliberadamente, não pertencem.

Materialidade suspensa, materialidade cambiante e materialidade fantasmática se entrecruzam em “qual”, acrescidas ainda de um ambiente com iluminação rebaixada, evanescente como os desenhos, envolvendo-os em mistério. Vistas de longe, as obras são difíceis de distinguir claramente, pois a fumaça e a pouca luz embaçam a vista. Quando se chega perto delas, a textura do tule e a complexidade dos detalhes embaralham a visão uma vez mais.

Os trabalhos não têm título individualmente, pois compõem todos a série Levianes, assim mesmo, sem gênero definido. Uns são “levianos”, outras, “levianas”, e há também “levianes”; ou seja, possuem, cada qual, suas características particulares e suas particularidades específicas, mas, do ponto de vista do gênero, pertencem a um tempo de transitividade permanente, que vem a ser o tempo de hoje, aqui e agora.

 

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